Publicado em 3 de setembro de 2026.

Bons, ou supostamente bons, os tempos em que os antigos e os modernos da Academia Francesa decidiram discutir a supremacia da arte e da literatura moderna sobre os padrões antigos baseados nos modelos greco-romanos. A coisa aconteceu em final do século XVII e ficou conhecida como Querela dos Antigos e dos Modernos. Supondo-se que essa discussão tenha ocorrido dentro da normalidade, o embate parece bastante apropriado entre grupos de intelectuais, ainda que um ou outro sentimentos de vaidade surjam. No caso da Querela, não houve vencedores nem perdedores, mas depois do pacto entre os dois lados, a Academia Francesa ficou por muito tempo sob a influência dos antigos.

Apesar disso - dura realidade -, os “imortais” da Academia Francesa não puderam evitar a velha e gratuita briga de egos intelectuais. A julgar por sua história, tudo na Academia Francesa foi como era antes no quartel de Abrantes e como viria a ser pelos séculos e séculos.

Há alguns casos conhecidos de afetações e rivalidades intelectuais ocorridos na Academia envolvendo nomes muito conhecidos da literatura francesa. O caso mais intrigante é o de Émile Zola, que tentou ingressar na instituição nada menos que vinte e cinco vezes, e em todas foi rejeitado. Victor Hugo teve melhor sorte, mas só depois de concorrer por quatro vezes foi finalmente eleito “imortal”. Acredita-se que Balzac, tendo concorrido por três vezes, não foi aceito graças ao extremo conservadorismo da Academia, que não via com bons olhos sua vida pública, não bastasse o escândalo das enormes dívidas em que se via envolvido.

A Academia Brasileira de Letras também se viu envolvida em debates. Um dos mais conhecidos ocorreu também entre os modernos e os antigos, terminando com o discurso inflamado de Graça Aranha contra o conservadorismo da entidade. Segundo consta, o autor de Canaã, depois de chamar a Academia de “reunião de espectros, um túmulo de múmias, um império de todas as velhices”, solicitou formalmente seu desligamento.

Há duas histórias a contar sobre candidaturas à Academia Brasileira de Letras. A primeira é a de Paulo Barreto, nome de batismo de João do Rio, a segunda é a de Geir Campos, o poeta nascido no Espírito Santo por obra e graça de São José do Calçado.

Conta-se uma história muito espirituosa quando da primeira candidatura de Paulo Barreto. Dona Florência, sua mãe, decidida a ajudar o filho por quem nutria forte admiração, abordou em certa ocasião nada menos que Machado de Assis. A história como segundo consta foi registrada pelo jornalista e autor teatral Luiz Edmundo, contemporâneo de Paulo Barreto. Aí vai como a li:

“- Meu filho é o Paulo Barreto, João do Rio, esse jovem que o senhor deve conhecer e que anda a publicar crônicas pela Gazeta de Notícias... Machado de Assis, que quase nada lera, então, de João do Rio, arregalou os olhos, e, num gesto largo, abrindo os braços, dando mostras de homem comovido, gentilmente, murmurou-lhe em surdina:

- Oh! minha senhora, mas seu filho... é o meu mestre!”

A história foi contada por João Carlos Rodrigues em seu livro João do Rio: vida, paixão e obra.

É sabido que João do Rio conseguiu finalmente ingressar na Academia Brasileira de Letras, mas somente em 1910, dois anos depois da morte de Machado de Assis. Dizem que isso não passa de coincidência, afinal não há indícios de que o Bruxo do Cosme Velho tenha se oposto formalmente à eleição do jovem cronista. No entanto, sabendo-se da disposição moral da Academia defendida pelo grupo em torno de Machado de Assis e do Barão do Rio Branco, não é de todo insuspeita a imposição aí dessas coisinhas tipiquinhas da vaidade que ronda a cabeça de alguns dos ocupantes desses institutos, com o perdão do homem que tem a batuta da literatura nacional.  

A história de Geir Campos com a Academia não é cavaco longe do pau. Ele mesmo a conta em duas crônicas publicadas nos anos 1980 no jornal A Ordem, de São José do Calçado, “Meu encontro com a Academia” e “Meu encontro com José Carlos (da Fonseca)”. Diz ele que tendo se decidido pela candidatura, compareceu à ABL e, ao protocolizar sua candidatura, ouviu do funcionário da casa: “Acho melhor o senhor deixar para outra oportunidade, porque esta ‘vaga’ é da Dona Dinah”. Trata-se de Dinah Silveira de Queiroz, eleita, claro, pois, prossegue Geir Campos, “Dona Dinah era casada com um destacado membro do Corpo Diplomático, membro esse capaz de conseguir uma porção de vantagens para alguns acadêmicos.” Depois de haver sido derrotado numa segunda candidatura para um “figurão” (palavra de Geir) da Igreja Católica, o padre Dom Marcos Barbosa, o poeta capixaba desistiu de vez.

Curiosamente, tanto ele quanto Paulo Barreto registraram impressões muito semelhantes de suas experiências.

Escreveu Geir Campos depois de sua derrota definitiva: “Aí passei a achar que a eleição para a Academia Brasileira de Letras pouco tem a ver com os méritos literários dos candidatos, e resolvi não me candidatar mais. Haveria necessidade de alguns conchavos” e ele não estaria disposto a isso. Está tudo registrado nas duas crônicas publicadas em A Ordem - Órgão Oficial e Noticioso de São José do Calçado.

Escreveu Paulo Barreto depois de sua primeira derrota: “Eu abomino a luta, a cabala eleitoral, a campanha da eleição de um homem contra homens que exigem respeito e admiração, se não pelos seus dotes literários, pelo menos pela sua ação na vida nacional”, escreveu ele “depois de insistir que a Academia fora outrora venal e desonesta” (ambas as citações foram tiradas do livro de João Carlos Rodrigues).

Essas campanhas são, naturalmente, impossíveis de imaginar, mas Jorge Amado, num de seus livros de maior sucesso, Farda, fardão, camisola de dormir,expõe com franqueza esses bastidores eleitorais. O livro, exceto pelo último parágrafo, em que Jorge Amado, sem necessidade, expõe uma espécie de moral da história, é, na minha modesta opinião, um dos melhores do escritor baiano.  

É mister que tais histórias se repitam, mas ai daqueles - ai também de nós outros, que nada lhes ficamos a dever - por meio de quem elas venham a se repetir. Picuinhas vêm, picuinhas vão, saindo de onde menos se espera. Triste o mundo dos pobres mortais pretendentes à imortalidade, como se tudo não terminasse numa humilhante posição horizontal ou no pó.

Mas, prosseguindo a roda do mundo, as associações têm, é inegável, a medida de seus dirigentes. Bem pode ser um reino, bem pode ser um feudo. Ou um quintal. Desde que as lideranças aglutinem um determinado número de sequazes, consegue confortavelmente reinar sobre seus reininhos e exercitar livremente seus egos, caprichos, frustrações, projeções goradas, invejas etcétera, feito meninos que em seus curraizinhos de quintais decidem caprichosamente o destino de seu gado de sabugo.

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