
Dia desses fui a Santa Maria de Jetibá falar de livros e leitura mais tudo aquilo que o livro me tem dado de prazer, saudáveis inquietações e evolução ao longo da vida. Os habitantes da cidade recebem com muito afeto, apreciam exibir informações sobre seu lugar, dentre as quais a de que são os maiores produtores de ovos do país e celeiro hortigranjeiro do estado. O motorista do carro oficial me deu uma informação inacreditável: apenas numa granja - e o proprietário tem três, apressou-se a esclarecer - as galinhas que, por assim dizer, lá residem põem diariamente um milhão e trezentos mil ovos. Apressei-me a conferir essa informação, vai que o sujeito era dado a ufanismos, e fiquei pasmo quando os dados confirmaram ser a produção, no município, de cerca de 15 milhões de ovos diariamente. Dá para imaginar?
Os ovos, que no meu tempo de menino caíam na maciez do pernambuco, capim com que se faziam os ninhos, numa dessas granjas gigantescas caem numa esteira e passam por várias etapas. A primeira delas é a seleção, em que os ovos são separados conforme estejam em condição ideal ou apresentem rachaduras, estejam muito sujos ou quebrados. Olhado o ovo por fora e já devidamente limpos (sim, os ovos são lavados), submetem-se a exames por dentro, sendo atravessados por luzes fortes capazes de verificar trincas internas ou presença de sangue. Como as galinhas são seres muito caprichosos, e sabido que cada qual delas põe o ovo do tamanho que quer, eles ainda serão separados por tamanho. Tem mais: se alguém pensa que os ovos trincados são descartados, está redondamente enganado. Se a trinca não os compromete, passam por um processo industrial e saem da granja como ovos líquidos ou em pó. Tudo muito asséptico - segurança e higiene acima de qualquer suspeita, me garante o motorista. E os ovos produzidos na pequena cidade de origem pomerana numa bela região do Espírito Santo seguem para todo o país, alcançando lares, comércios e indústrias, a tal ponto que Santa Maria de Jetibá é conhecida como Capital Nacional do Ovo, assim em maiúscula, que é título de que muito se orgulham os santa-marienses.
Por que falei isso? Falei porque no silêncio das curvas da estrada de Santa Maria de Jetibá a Vitória eu me lembrei das pobres galinhas do quintal de nossa casa. Seus ovos? Quando nada, meia dúzia no final do dia, colhidos com cuidado para não se quebrarem. Se dentre as galinhas, todas pés-duros, alguma não punha mais ovos, perdia o pescoço, virava carne e caldo para canja (se fosse muito velha) ou almoço de domingo, dia em que lá em casa o prato principal infalível era galinha ensopada com batatas acompanhada de angu batido mais de hora na panela preta de ferro.
Uma dia meu pai, com certeza cansado daquela titiquinha de ovos produzidos pelas galinhas do nosso quintal, chegou lá em casa com trinta franguinhas de pena cor da terra vermelha. Eram aves da raça Rhodia, como são conhecidas as galinhas Rhode Island Red. Elas foram inicialmente colocadas num cercado à parte e tratadas com ração de nome pomposo: ração de postura balanceada. Assim começou a humilhação das velhas moradoras do terreiro, obrigadas a passar com o velho milho carunchado enquanto ali ao lado as galinhas recebiam quitute tão sofisticado. E o pior para essas velhas galinhas ainda estava por vir: talvez por reagirem à presença das novatas quando inseridas no cercado comum, boa parte delas tenha ido depressinha para a panela, até que sobrassem no quintal apenas as que aceitassem a convivência com aquelas aves de porte tão nobre, todas iguaizinhas, fofuras de pena terracota.
Logo essas novas moradoras se afizeram à rotina do quintal. Na hora de se recolher, mal caía a tarde, rapidinho aprenderam, com as velhas galinhas e seus galos, a dormir sobre o pé de laranja bahia. E, claro, aprenderam também a cagar não apenas o pé de laranja bahia como o pé do pé de laranja bahia e as laranjas penduradas em seus galhos. De tal modo que, se quiséssemos alguma daquelas laranjas, tínhamos de pisar em merda de galinha e lavar as laranjas bem lavadinhas. Mas que recompensa! Nunca na minha vida vi laranjas bahia tão doces e suculentas como aquelas. Duvido, dei de pensar para mitigar a humilhação de nossas pobres galinhas, que em Santa Maria de Jetibá, nessas enormes granjas automatizadas, as pobres aves consigam estercar tão bem um prosaico pé de laranja bahia como o do nosso quintal.
Com a presença das Rhodia, foi um mundo de ovos, mas a produção infalível e abundante das novas moradores nada pôde fazer em favor de seu destino comum. É que as pobrezinhas, decorridos alguns meses, não eram mais capazes de pôr. Então, sem ovos, panela.
Não será de espantar que a esta altura ninguém queira saber quem é Pepenha, que dá título a esta crônica? É que, lembrança vai, lembrança vem, não pude deixar de me lembrar de Pepenha. Culpa talvez de algum tom de luz na estrada, de alguma fragrância nostálgica, de algum sentimento triste em relação ao tempo que insiste em passar e levar as coisas bonitas vividas pela gente, por isso me lembrei de Pepenha, que me ensinou as delícias de nossas laranjas bahia cagadas, comidas por ela com tanto gosto e com gosto oferecidas à minha boca. Pepenha que, não sendo assunto para esta crônica, senão para os deleites silenciosos de minhas lembranças, põe-se em cena para, quem sabe, ofertar seu sorriso terno do lugar em que se encontra desde que desse lugar nunca pôde sair. Mas, é como digo e repito, isto é cá pertinência das memórias do autor.

Ana Emília Moraes Rettore Pedro José Nunes, você é um caso assim... nem sei dizer... É um prazer me deleitar com essa escrita tão suave, que parece que eu estou ao seu lado, no banco do automóvel que te levou a Santa Maria. Que sensação maravilhosa essa de dar uma olhadela dentro da cabeça do cronista, quando ele vai visitar suas memórias. Obrigada por compartilhar seu trabalho.
Carmen Conopca Caro Pedro, sua crônica me transportou às galináceas da minha infância, igualmente uma meia dúzia de pés-duros, galinhas sem raça, todas de mesmo destino: ou punham ovos diariamente ou eram postas na panela do domingo.
Uma daquelas galinhas foi o único animal de estimação - por assim dizer - de minha vida inteira. Choquinha, uma carijó de penas que iam do amarelo ao bronze e ao marrom. Choquinha morava no meu pequeno colo por várias horas do dia.
Minha irmã, por pura diversão, um dia pintou de vermelho as unhas de Choquinha. Ela ficou então uma galinhazinha ainda mais galinha, com suas garras bizarras cor de vinho. Depois essa mesma irmã, agora por pura maldade, e para me ver chorar (o que não era difícil) inventou de segurar a Choquinha pelos pés, esticou o braço e girou a pobre da ave infinitas vezes, fazendo o braço de roda-gigante-de-galinha. Ao ser novamente posta sobre o chão, Choquinha caminhou trôpega, de lado, caindo e se levantando feito um dos bêbados contumazes dos botequins do morro em que morávamos.
Um dia veio uma doença e levou não só Choquinha, como todas as galinhas e o galo. De manhã estavam todas deitadas de banda sobre o chão empoeirado do quintal, os olhos semicerrados, um grãozinho de areia incrustado na fresta da pálpebra. Foi a última vez que vi Choquinha. Desconfio que do lado de lá, para onde vão as galinhas quando partem, ela me olhou de volta.
Pelo menos escapou da panela. Foi sepultada condignamente em uma vala comum, nos fundos do quintal, juntamente com suas companheiras de cacarejos e posturas.