Desde que me entendo por gente fui, e desde que me entenda por gente sou e serei, adepto das mezinhas, dos unguentos, dos emplastros, das beberagens, das infusões e das garrafadas, e ponho fácil meu pé no terreiro das benzedeiras se um achaquezinho me desconsola. É um aprendizado de família. Nas andanças com meu pai, quanta vez não o vi passar a mão em arbustos e sair comendo. Numas era erva-de-santa-maria, ou mastruz, erva de cheiro nauseabundo, mas eficaz contra lombrigas, noutras era o macaé, para males do estômago. Meu pai sabia. Assim como sabia que deitar-se na terra virgem das matas era bom para seus achaques da coluna. Na infância, a qualquer mal de febre renitente, já me via sendo levado por meus pais para ter varridas as mazelas a raminhos de guiné ou arruda nas mãos da benzedeira. Lá em casa, mais valia a fé que a Cibalena, e mais valia a Cibalena se com fé fizesse trato. Leia

 

Já estive, ao longo de minha curta vida, em vários corredores: longos, curtos, apertados, largos, iluminados, úmidos, assombrados e desassombrados. Já vi muita gente e muita coisa nesses ambientes de tão vária natureza, mas nunca que encontrei por lá esse digno senhor – ou essa distinta senhora, pois não – a que chamam o Mesmo, ou seja, o Sr. Mesmo ou a Sra. ou Srtª Mesma. Uma criança que seja, a que se chamaria Mesminho ou Mesminha. Nem cão, nem gato, nem calopsita. Nem sei por quê, diante do elevador, eu tenha de observar a tão incompreensível ordem de verificar se o Mesmo, ou a Mesma, senhor ou senhora, conforme seja, aí se encontrem, nesse andar mesmo em que me encontre. Leia

 

Sempre que vejo, ou imagino, uma determinada ilustração para Os contos de Canterbury, de Chaucer, minha imaginação se deixa levar a um aconchegante ambiente idealizado de leituras e histórias. Os mecanismos da mente são sutis. Eu fazia uma pesquisa de imagem na Internet quando a encontrei, e ela encaixou-se perfeitamente a essa agradável cena que momentos antes eu havia imaginado. Leia

 

Publicado em 17 de março de 2026.

Primeiro foi uma questão de vizinhança. Eu morava, no final de 1981, na rua Neves Armond, que desembocava na Leitão da Silva. Do outro lado da avenida se via a Distribuidora Paulista, na pequena vitrine um título insistente, Enterrem meu coração na curva do rio, de Dee Brown, livro de enorme sucesso na época. Eu passava frequentemente em frente à pequena loja, mas não havia me decidido ainda a entrar. Leia

 

Publicado em 17 de março de 2026.

Não sou desses puristas intragáveis e acho que a língua deve estar a serviço de quem a usa, não o inverso. Quando a expressão é correta e precisa, basta. Se houver aí o acréscimo de alguma elegância de estilo, é puro deleite.

No entanto, devo confessar que certos modismos me batem desagradáveis, isso quando não aparentam escamotear imprecisão, má vontade, indiferença, falso pedantismo ou coisa que o valha. Leia

 

Publicado em 12 de fevereiro de 2026.

Pitaco todo mundo sabe o que é, não passa de opinião sem comprovação ou pertinência, coisa, a propósito, que tanto pode vir a ter interesse quanto desprezo a depender da generosidade do ouvido em que cai. Vem de dar pitaco, significando mais ou menos a mesma coisa de falar quando o melhor seria não ter aberto a boca, já que muita vez ninguém pergunta pelo pitaco de quem dá pitaco. Leia

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© 2005 Pedro J. Nunes. Todos os direitos reservados.