

Oitenta anos atrás, em 1945, Newton Braga, capixaba de Cachoeiro de Itapemirim, escrevia: “Com os respectivos perigos de qualquer generalização, a afirmação que se impõe, numa conversa sobre literatura espírito-santense do momento é esta, de certo dura: acontece que não há.”
Para definir a nossa pequenez, a expressão “poeta municipal” de Drummond chegou a ser adotada por dois de nossos maiores escritores, Renato Pacheco e Reinaldo Santos Neves, para ironizar nosso entranhado acanhamento.
Diante dessa aparente descrença em nós mesmos, cabe perguntar: há ou não há, afinal, literatura capixaba?

Bons, ou supostamente bons, os tempos em que os antigos e os modernos da Academia Francesa decidiram discutir a supremacia da arte e da literatura moderna sobre os padrões antigos baseados nos modelos greco-romanos. A coisa aconteceu em final do século XVII e ficou conhecida como Querela dos Antigos e dos Modernos. Supondo-se que essa discussão tenha ocorrido dentro da normalidade, o embate parece bastante apropriado entre grupos de intelectuais, ainda que um ou outro sentimentos de vaidade surjam. No caso da Querela, não houve vencedores nem perdedores, mas depois do pacto entre os dois lados, a Academia Francesa ficou por muito tempo sob a influência dos antigos.
Apesar disso - dura realidade -, os “imortais” da Academia Francesa não puderam evitar a velha e gratuita briga de egos intelectuais. A julgar por sua história, tudo na Academia Francesa foi como era antes no quartel de Abrantes e como viria a ser pelos séculos e séculos.
Dia desses fui a Santa Maria de Jetibá falar de livros e leitura mais tudo aquilo que o livro me tem dado de prazer, saudáveis inquietações e evolução ao longo da vida. Os habitantes da cidade recebem com muito afeto, apreciam exibir informações sobre seu lugar, dentre as quais a de que são os maiores produtores de ovos do país e celeiro hortigranjeiro do estado. O motorista do carro oficial me deu uma informação inacreditável: apenas numa granja - e o proprietário tem três, apressou-se a esclarecer - as galinhas que, por assim dizer, lá residem põem diariamente um milhão e trezentos mil ovos.
Desde que me entendo por gente fui, e desde que me entenda por gente sou e serei, adepto das mezinhas, dos unguentos, dos emplastros, das beberagens, das infusões e das garrafadas, e ponho fácil meu pé no terreiro das benzedeiras se um achaquezinho me desconsola. É um aprendizado de família. Nas andanças com meu pai, quanta vez não o vi passar a mão em arbustos e sair comendo. Numas era erva-de-santa-maria, ou mastruz, erva de cheiro nauseabundo, mas eficaz contra lombrigas, noutras era o macaé, para males do estômago. Meu pai sabia. Assim como sabia que deitar-se na terra virgem das matas era bom para seus achaques da coluna. Na infância, a qualquer mal de febre renitente, já me via sendo levado por meus pais para ter varridas as mazelas a raminhos de guiné ou arruda nas mãos da benzedeira. Lá em casa, mais valia a fé que a Cibalena, e mais valia a Cibalena se com fé fizesse trato.
Já estive, ao longo de minha curta vida, em vários corredores: longos, curtos, apertados, largos, iluminados, úmidos, assombrados e desassombrados. Já vi muita gente e muita coisa nesses ambientes de tão vária natureza, mas nunca que encontrei por lá esse digno senhor – ou essa distinta senhora, pois não – a que chamam o Mesmo, ou seja, o Sr. Mesmo ou a Sra. ou Srtª Mesma. Uma criança que seja, a que se chamaria Mesminho ou Mesminha. Nem cão, nem gato, nem calopsita. Nem sei por quê, diante do elevador, eu tenha de observar a tão incompreensível ordem de verificar se o Mesmo, ou a Mesma, senhor ou senhora, conforme seja, aí se encontrem, nesse andar mesmo em que me encontre.
Sempre que vejo, ou imagino, uma determinada ilustração para Os contos de Canterbury, de Chaucer, minha imaginação se deixa levar a um aconchegante ambiente idealizado de leituras e histórias. Os mecanismos da mente são sutis. Eu fazia uma pesquisa de imagem na Internet quando a encontrei, e ela encaixou-se perfeitamente a essa agradável cena que momentos antes eu havia imaginado.
Primeiro foi uma questão de vizinhança. Eu morava, no final de 1981, na rua Neves Armond, que desembocava na Leitão da Silva. Do outro lado da avenida se via a Distribuidora Paulista, na pequena vitrine um título insistente, Enterrem meu coração na curva do rio, de Dee Brown, livro de enorme sucesso na época. Eu passava frequentemente em frente à pequena loja, mas não havia me decidido ainda a entrar.
Não sou desses puristas intragáveis e acho que a língua deve estar a serviço de quem a usa, não o inverso. Quando a expressão é correta e precisa, basta. Se houver aí o acréscimo de alguma elegância de estilo, é puro deleite.
No entanto, devo confessar que certos modismos me batem desagradáveis, isso quando não aparentam escamotear imprecisão, má vontade, indiferença, falso pedantismo ou coisa que o valha.

Pitaco todo mundo sabe o que é, não passa de opinião sem comprovação ou pertinência, coisa, a propósito, que tanto pode vir a ter interesse quanto desprezo a depender da generosidade do ouvido em que cai. Vem de dar pitaco, significando mais ou menos a mesma coisa de falar quando o melhor seria não ter aberto a boca, já que muita vez ninguém pergunta pelo pitaco de quem dá pitaco.