Publicado em 30 de março de 2026.

Lá se vão 45 anos. Em 1981, dezembro, fiz minha primeira compra na Distribuidora Paulista, esquina da Henrique Rosetti com Leitão da Silva, o Dicionário Michaelis inglês-português. Esse estabelecimento viria a se tornar uma das lojas da Livraria Logos. Sempre me lembro disso quando passo na rua Henrique Rosetti, em Bento Ferreira e, no lugar da minha velha livraria, vejo um prédio de apartamentos sobre lojas que nada têm a ver com uma casa de livros. Há dias em que estou anestesiado, mas noutros me ocorre uma saudade quase insuportável daqueles dias felizes. Morador de Bento Ferreira, era raro não passar lá para tomar um café gentilmente oferecido pelos funcionários e tomar pé das novidades. Hoje, ainda morador de Bento Ferreira, já não há onde passar quando a caminho de casa. Escrevi esse parágrafo para contextualizar o texto abaixo, escrito em 2008, quando a livraria fazia 25 (ou, no meu caso, 27) anos. Afinal, já se vão 18 anos desde então.

***

Meus últimos vinte e seis, vinte e sete anos estão intimamente ligados à Livraria Logos.

Primeiro foi uma questão de vizinhança. Eu morava, no final de 1981, na rua Neves Armond, que desembocava na Leitão da Silva. Do outro lado da avenida se via a Distribuidora Paulista, na pequena vitrine um título insistente, Enterrem meu coração na curva do rio, de Dee Brown, livro de enorme sucesso na época. Eu passava frequentemente em frente à pequena loja, mas não havia me decidido ainda a entrar.

Um caso de necessidade me fez finalmente entrar na livraria. Eu estava penando, de par com meu inglês sofrível, para ler, mais adivinhando que lendo, um velho exemplar de Down and out in Paris and London, de George Orwell, então achei necessário adquirir um dicionário de inglês-português, com o qual talvez pudesse dar fim a meus apuros. Na mesma vitrine, ao lado de Dee Brown, o dicionário Michaelis finalmente me levou à pequenina loja que daria origem à Livraria Logos.

Para quem não conheceu e hoje frequenta a Livraria Logos da Leitão da Silva, matriz, talvez seja estranho pensar que a loja original era a pequena varanda e aquela parte onde estão os livros infantojuvenis. Todo o resto era um atulhado depósito de papel: parece-me que a Distribuidora Paulista representava a Melhoramentos. Foi aí que comprei meu primeiro livro e conheci o bom amigo Chico (Francisco Olsen) e os mais antigos funcionários da empresa de que se tem notícia e que lá ainda estão, Sônia, minha amiga de juventude em São José do Calçado, e Walter, para quem escrevi este depoimento.

Mas a história anda. Em 1987 meu conto “Sereia” foi vencedor em um concurso promovido pela editoria Brasiliense, então uma potência editorial, e foi publicado no livro Jovens contos eróticos. A publicação só contava comigo para representar as letras capixabas. Quem representava a editora no estado? A Logos, nova cara da antiga Distribuidora Paulista, e onde eu tinha ficha (sim, nós ainda anotávamos as dívidas com livros em ficha).

(Segundo consta, a Logos surgiu em 1983, quando Chico e Sílvio (Folli) se uniram para criar aquela que viria a se tornar a maior livraria do estado. Eu me lembro da segunda loja da Logos – todo mundo a confunde como sendo a primeira –  instalada onde antes ficava a antiga Âncora, na famosa rua das livrarias no centro de Vitória. Na inauguração já veio com promoção: três livros por cinco cruzeiros, coisa assim.)

Mas voltemos a 1987. Walter me contou a história: Sílvio, ao saber de um capixaba no livro, havia perguntado se alguém o conhecia. E o mesmo Walter prontamente lhe disse que o autor tinha ficha na casa e passou o telefone a ele. Assim conheci Sílvio, primeiramente pelos cabos do telefone, mas de quem me tornaria amigo e parceiro nas coisas de leitura e livros.

Foi também por essa época, talvez um pouco antes, que conheci o Jorge Rangel, essa extraordinária figura do livro de quem me tornaria amigo. Conheci na Livraria Capixaba, na Nestor Gomes, a, volto a dizer, famosa rua das livrarias. O Jorge daria uma história à parte. Jorge se tornou gerente da loja da Leitão da Silva e criou, por volta de 1989, quando a Livraria Logos da Leitão da Silva já tinha a estrutura de hoje, as condições para o início da reunião de um pequeno grupo de amantes de livros, leitura e livraria: João Bonino, Serginho Bichara, Carlos Lugon, José Neves, Francisco Grijó e eu. Com o tempo esse grupo ficou imenso, e foi Renato Pacheco quem lhe arranjou um nome: Sabalogos. Esse batismo também daria mais uma de tantas outras histórias.  

Pois bem, e agora a Livraria Logos comemora seus 25 anos – para mim 27. Na cadeia universal, um átimo. Mas na vida de quem está no meio dos quarenta é um tempo significativo. Quanto mais se pensar que ali estabeleci vínculos para toda a vida, conheci caminhos para a minha própria, comecei a me acreditar escritor na efervescência dos ideais dos confrades das manhãs de sábado ou nas casualidades vespertinas. Um período valiosíssimo esse dos 25 anos da Livraria Logos do qual todos nós, frequentadores, colaboradores, clientes, funcionários, dificilmente esqueceremos ou deixaremos esquecer.

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