Pitaco todo mundo sabe o que é, não passa de opinião sem comprovação ou pertinência, coisa, a propósito, que tanto pode vir a ter interesse quanto desprezo a depender da generosidade do ouvido em que cai. Vem de dar pitaco, significando mais ou menos a mesma coisa de falar quando o melhor seria não ter aberto a boca, já que muita vez ninguém pergunta pelo pitaco de quem dá pitaco.
Não há consenso sobre a origem do vocábulo tão comum em frases como não me venha com pitacos, expressão frequentemente usada quando se deseja rebater com veemência algo sem interesse. Frases com uso de pitaco, aliás, assim como a própria palavra, são arcaicas. A juventude, sempre tão prática e ocupada para perder tempo com miçangas, para expressar indignação prefere dizer cale a boca, o que é mais ou menos a mesma coisa, devidamente up to date.
Se disse arcaísmo no parágrafo anterior, é porque se você pronunciar - experimente - pitaco perto de um jovem, bastante provável que ele rebata fazendo cara surpresa e divertida, pitá o quê? Além disso, já que lhes demos motivos, não estando em seu repertório, dessa coisa mofada e demodê os jovens adoram dizer é coisa de velho. De nossas cãs e de nossos arcaísmos muito se ri a juventude, sempre tão leve (afinal papai e mamãe cuidam de tudo), cada dia mais literal. Então, sempre bom lembrar os nossos meninos e meninas de que existem palavras de antanho.
Dizem que vem de Pítaco, governante e sábio grego da antiguidade, mas suspeito que se Pítaco pudesse dar um pitaco ele não concordaria muito com essa associação senão no que concerne a uma breve semelhança de pronúncia.
Batido, de sentido inusual como o proposto aqui, uso do qual pode pesar a acusação de signo nichado, pessoal, restrito, forçação de barra, será no entanto mais compreendido se associado a corriqueiro, corriqueiro como o que é do conhecimento de todos e sobre o qual todos têm concepção universal. Afinal, muito comum ouvir a expressão isso é batido, para assuntos já bolorentos, ou esse pensamento bate com o meu, quando, independentemente do que um ou outro pense sobre determinado conceito, não há como explorar sentidos fora do significado comum.
Assim, proponho pitaco como opinião sobre a qual tenho certeza de que melhor seria ter ficado calado, sinônimo de opinião, e batido como coisa do senso-comum, com jeito de argumento, coisa a que, sendo como é, independe do que eu ou qualquer outro tente conceituar.
Por fim, frise-se e se refrise, pitaco ainda está aqui para o que talvez não devesse ser dito, e batido para o que talvez não fosse necessário dizer. Ao leitor que me for simpático, resta-me o consolo de que sobre pão ou pães não fui capaz de manter minha boca fechada.