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Das aparições - parte I

 

Havia em São José do Calçado tal multidão de figuras peculiares que responderia a todas as necessidades que uma cidade tem de seus loucos, andarilhos, mendigos e tais. Eles surgiam de todas as ruas, de todos os cantos. Essas pessoas cravaram-se em minha infância. Familiares e cordeiras ou distantes e ferozes, tais figuras iam surgindo no cenário diário das ruas que eu frequentava.

Ordinários eram o bêbado Genésio, pálido feito um cadáver, vigiado pela aflição das filhas em evitar-lhe o primeiro gole diário, o Zé Dias, pinguço que trabalhou na olaria de Zé do Deco, meu avô materno, e que morreu engasgado com osso de galinha, o João Dandão, que, dia sim, dia não, tinha acesso – que é a forma como o povo chamava seus ataques epilépticos. O Zé Luzia empurrava a carroça cheia de ossos de boi, dizia que era para as sopas, mas nunca sabíamos o destino de tantos esqueletos. Havia o Tião Comprido, que bebia o sangue das novilhas abatidas no matadouro da Rua Nova, aparando debaixo do rombo da jugular as mãos enormes. E havia o Zé de Sá. Corroído por alguma paixão, cantava suas serenatas solitárias. A voz rouca se espalhava nas ladeiras tomadas pela noite. Zé de Sá, encostado nos umbrais das casas da rua do Pó, rua onde algumas das mulheres lá residentes serviam abraços, sustentava a bebedeira enquanto esgoelava suas notas tristes. Notável era a rapinagem do Badi, capaz de farejar a quilômetros um boi eletrocutado por raio ou espedaçado por queda. Aparecia feito de muitos olhos, acariciando as facas.

Embora inofensivas, essas criaturas causavam susto misturado a fascinação. Genésio, João Dandão e Zé Dias haviam sido fregueses assíduos de Zé do Deco, que, além da olaria, tinha um botequim na rua do Jaspe. João Dandão gostava de pegar-me nos braços quando eu era uma raspa de menino. Zé do Deco, abandonando precipitadamente o balcão, vinha colocar-se ao lado dele. O sorriso amarelo temia ofender a suscetibilidade do freguês. Explicava-se, muito cheio de dedos, que João Dandão, epiléptico, bem poderia vir a ter um acesso e deixar cair-lhe o neto. João Dandão foi dos mais próximos o mais ofuscado. Não durou muito, amiudadas as crises. Quanto aos demais, capturados todos no fumo dos primeiros anos, não passaram de seres silenciosos que vagavam na inexatidão. Alguns me atravessaram toda a infância. Zé Dias, Genésio e Zé de Sá também se extinguiram no tempo da meninice. Deste, costumava Zé Benedito, meu pai, dizer:

— Um dia estoura de tanto cantar.

E um dia estourou. Encontraram-no defunto, deitado à porta de uma das reticentes mulheres da rua do Pó. Depois de sua travessia, as noites em São José do Calçado nunca mais seriam as mesmas.

Mas havia as figuras distantes.

Dona Maria era uma sombra semanal. Residia na Usina, gigantesco prédio abandonado à margem do asfalto, na Fazenda Velha. Empreendimento gorado, servia a coito de cães, descanso de ruminantes e abrigo de loucos. Podia ser vista encurvada em longo silêncio, vigiando o fogo tênue. Figura de desolação. Diziam que seu humor variava com a Lua. Ouviam-na, os que ousavam chegar mais perto, em cânticos religiosos lamurientos. Às vezes cobria a cabeça com sacos, rodopiava lentamente no que poderia ser uma dança para a expiação dos pecados, jogava terra e cinza no alto da cabeça, e se maldizia, rogando em seu favor as consolações celestiais.

Em vão tentavam os parentes retirá-la dessa vida. Dona Maria, embora esmolasse um prato de comida em casa de um e outro, recusava os demais favores da hospitalidade e, insistissem com ela, tornava-se feroz e rogava em seu favor as setecentas pragas do inferno.

Quando víamos Dona Maria surgir na cabeceira da Ruy Barbosa, encolhíamos-nos para vê-la passar. Vergada pela autocomiseração, vinha atormentada por seus assuntos espirituais, emprestando aos hinos ouvidos nos ofícios religiosos a voz muito fina e lamurienta. O véu negro sobre a cabeça, Dona Maria repuxava as bordas com as mãos. Trazia sempre consigo um crucifixo. Os lábios bambos distribuíam bênção ou maldição, a depender do humor, a depender da Lua.

Louca pacífica, gostávamos de lhe pedir a bênção:

— A bênção, Dona Maria.

— Vai-te com a Mãe de Deus, excomungado.

Ou, se não lhe estivesse bom o fígado:

— Consumam-te os sete ventos do inferno, sacripanta.

E sem olhar para trás, ao menos para ver o efeito de suas ministrações, Dona Maria era tragada pela ladeira Antão Gomes numa desaparição nevoenta, quase encantada.

De ousada mendicância era a Domingas Pau-Dentro, miserável itinerante que residia na sombra das marquises de São José do Calçado e cidades vizinhas. Dizem que a pegavam de pica os loucos da rua, ficavam mansinhos de deitar com ela. Um negro violentou-a numa noite fria. Para mal de seus antigos amores, encantou-se por ele, a ponto de afirmarem havê-los visto em atitudes de amor contra a luz da Lua. Fosse como houvesse sido, a Domingas Pau-Dentro apareceu embarrigada e deu à luz um moleque chorão que atrapalhava a vida das generosas senhoras em cujas portas vinha bater atrás da caridade.

Quase não tínhamos interesse na Domingas, exceto quando lhe negavam alguma esmola. Ela então arriava todo o pesado corpo na calçada ou, pior, no beco de entrada ou nas varandas das casas, e punha-se em coceiras que iam repuxando os panos sujos com que se cobria até exibir sua nudez grotesca. Ajuntávamos-nos na corriola medonha, atiçávamos, fazíamos com ela coro contra a avareza dos calçadenses.


Este capítulo, dividido em duas partes, bem poderia ter permanecido no texto final do livro, restando apenas fazer algumas adaptações, mas optei por retirá-lo porque só faria inchar o romance. A maioria das personagens que aqui aparecem são comuns a todos os da minha geração, mesmo aquelas de cujos nomes não me lembrei corretamente. Apenas a Domingas é composta em sua maior parte de matéria imaginativa, embora baseada numa senhora que realmente existiu.

 

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