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Feitos e desfeitos do conquistador

 

Embora o tempo que consumisse para acostumar-me às novas circunstâncias fosse de grande sofrimento, cumpri os dias que minorassem as angústias da ausência de Emília, transferida para os subúrbios do Rio de Janeiro por conta de seu casamento.

Auxiliavam-me na tarefa os primos que apareciam. Maiores e mais experientes do que eu, davam oportunidade a travessuras cuja novidade me corrompia. E as explorações dos novos domínios davam razoável alento à saudade.

A casa nova me propiciava experiências nunca antes experimentadas. Tinha de mais notáveis vários porões cujas portas davam para o quintal íngreme. Os cômodos escuros encantavam na medida do mistério que a escuridão produzia, a fascinação costumeira das coisas proibidas enredava-me num vento furioso ao penetrar naquele território dos gozos mais extremos.

Sentia-me mais independente à medida que o tempo passava. Já não me impunham fronteiras, relaxados os adultos na solicitude da vida. As experimentações foram dando-me conta desse fato, norteavam o comportamento. Desocupados de mim, os bípedes da fauna doméstica preocupavam-se com minhas duas irmãs mais novas, ainda muito dependentes de cuidados, e com meu irmão, cujo nascimento ainda era muito recente para que Dona Anna, Zezé ou Zé Benedito tivessem ocasião de pôr em mim todos os seus olhos.

O novo quintal com o cercado de porcos, as aves, as árvores frutíferas e o bosque de vegetação ordinária passou a ser o território absoluto. Eu era o monarca. Déspota feito de afirmações e ameaças, fazia pregá-lo aos suínos e às aves, transformados em meus súditos.

Ia eu equivocado nesse senso de propriedade quando, encontrando ao acaso uma cavadeira num dos porões, resolvi experimentá-la. Ainda que meio desajeitado, e procurando recordar-me da recordação de meu pai em tarefas de escavação, comecei a abrir aquilo que eu achava o princípio de uma cratera. Encontrei em minha obra alguma grandeza, alguma utilidade, enchi-me de entusiasmo. Absorvido como estava, não dei pela aproximação de um vulto. Quando me dei conta, lá estava Zé Benedito diante de meu olhar aparvalhado. Entre mim e ele o código das palavras se fazia desnecessário, entendíamo-nos por troca de olhares e os ventos que diziam.

Meu pai era, de ordinário, presença silenciosa. Sua afabilidade era tensa e esguia, apenas insinuada. Naquela idade, arisco como eu era, Zé Benedito há muito descera comigo ao território dos olhares vulcânicos, que sugeriam uma apressada resposta de respeito, uma reverência dolorosa, a contenção da rebeldia que sequer conseguia esboçar.

Havia em meu pai um gesto que me causava um horror que desaguava sempre na obediência imediata e cega: bastava que acrescentasse ao olhar pesado um raspar de garganta, a dissimulação de uma tosse, um engasgo. Cumprido esse arremate à comunicação já estabelecida, sem demora pus-me a puxar a terra que, tendo retirado do buraco, fazia voltar ao lugar de origem. Roía por dentro, num silêncio reverencioso, o profundo desagrado que representava para mim. Não era meu o quintal? Não lhe dominara os elementos? Não era eu quem passava ali o dia inteiro, domando os imaginários seres que encontrava nas sombras dos porões cujas trevas refletiam meus desejos?

Enquanto eu sofria, meu pai, devolvendo-me gracejos humilhantes, ia comparando-me a tatus e outros seres subterrâneos, sempre inquisitivo. Parecia-me despropositado que alguém gracejasse enquanto eu sofria. As atitudes de meu pai, a princípio uma ameaça, ganharam o caráter de um descabimento. Indiferente, no entanto, a todo o vendaval que me ia por dentro, meu pai permaneceu na posição tirânica todo o tempo que levei a descumprir a tarefa que cumprira, retirou-se somente depois que terminei de recompor a integralidade do quintal, só então desapareceu pelos ermos da casa.

Surgiram vários sentimentos desencontrados. Uma ideia vinha surgindo, da natureza de uma fumaça tímida que o vento rapidamente dilui. Ainda sem atinar com o que me ia por dentro, dispus-me em tempestades. Meu pai banhava-se: a pequena janela do banheiro, suficientemente longínqua, colocara-o em território nulo. Peguei de uma vara fina arrancada do pé de amora, limpei-a das folhas e, numa alegria feroz, dei em vergastar os porcos. Não satisfeito, apedrejei as galinhas e os patos. Só então, cumprida a desordem, sosseguei. Sentado no limo do quintal, decidi que tudo me seria possível, desde que pudesse driblar o código dos adultos que compunham a fauna doméstica: eles eram tudo o que impedia a posse efetiva daqueles domínios.

Dava início à composição das fronteiras.


Este trecho ficou reduzido a alguns poucos parágrafos do capítulo Vizinhos, e quase lamento não haver deixado no texto final do romance Menino a cena com meu pai, da qual me lembro tão nitidamente que parece estar acontecendo ainda agora.

 

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