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Percalços

 

Em razão de uma febre teimosa de origem desconhecida, meus pais se viram na difícil tarefa de procurar recurso médico que ficava a distância de razoáveis léguas de estrada barrenta. Chovia em Ibitirama, vilarejo onde, a despeito de já haver chegado a tecnologia prosaica das gigantescas pontes de madeira, não chegara ainda o mais rudimentar recurso da medicina, que ali era incapaz de desbaratar uma gripe mais robusta.

 

O farmacêutico de Ibitirama, tomado de um nervosismo escarlate, talvez por reconhecer a circunstância em que se achava, agarrou-me pelo queixo, introduziu-me a trêmula espátula pela boca, conjecturou, acabou concluindo:

 

― Nada há na goela.

 

Investigou-me as orelhas, procurou chiados no peito, perguntou por picadas de carrapato, não encontrava respostas nos tartamudeios ansiosos de Dona Anna nem nas páginas do livro ensebado que folheava ávido. Depois de toda a cena, adotando ar doutoral, declarou, peremptório:

 

― Não tenho recurso.

 

Tiveram de levar-me a Guaçuí, o que era um enorme sacrifício a considerar a dificuldade em providenciar locomoção e à precariedade das estradas lamacentas.

 

Muito embora meu mal-estar fosse imenso, não quis saber de nada: esperneava, bicho furioso, indomável. Dona Anna, muito aflita, terá tentado sensibilizar-me com seus olhos aflitos que, na altura dos acontecimentos, eram inexpressivos para mim. Zé Benedito, com mãos enormes, tomou-me em seus braços contra os quais minha resistência, frágil, tornou-se impossível. Viajamos de Jeep, único automóvel naquela vastidão, oferecido por um vizinho, velho companheiro de meu pai. Minha mãe, cuja grande palidez denunciava a enorme aflição em que se achava, sentou-se no banco dianteiro, Zé Benedito me levava no banco de trás, em seu colo, e havia outros viajantes, dois ou três. Exausto e trêmulo, meus olhos perdiam-se na névoa que adensava nas paisagens que se estiravam atrás do veículo.

 

Vendo-me com o olhar fixado na lama que os pneus iam levantando pela estrada, um daqueles viajantes declarou, com um riso que tanto podia ser de despeito quanto de admiração:

 

― Menino teimoso.

 

Meu gesto mal interpretado era, já instalado em meu temperamento desde o princípio, o hábito das paisagens corriqueiras e essa rejeição às mudanças que persistiu em acompanhar-me desde sempre. Atitudes semelhantes me assaltavam diante das perdas. Inevitáveis por seu caráter, as perdas promoviam em mim um sofrimento ainda mais cruel: o que antes existia cedia lugar ao vácuo, ao nada, e esse vazio gerado pela ausência galgava o caráter de uma digestão acidentada, purgação que na maioria das vezes nunca cheguei a compreender, tamanha a dor.

 


Os quatro primeiros capítulos do romance Menino foram condensados em apenas dois: o primeiro, Moleque, e o segundo, Vizinhos. No original do romance, estes eram os primeiros parágrafos do capítulo Vizinhos, que fala de perdas e mudanças na vida do menino.

 

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