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A língua não escapa de ser assassinada

 

“Mick Jagger escapou de ser assassinado”, estampou em título bombástico um jornal de Vitória em  04  de  março  de  2008, uma terça-feira.  E então se lê a matéria:  “Mick Jagger, o vocalista (!) dos Rolling Stones, foi salvo de uma tentativa de assassinato por Hell’s Angels, quase 40 anos atrás...” Bom, vê-se que os anjos do inferno não são assim tão ruins quanto parecem. Mas se você continuar lendo a matéria, aí é que vai ver como a coisa fica infernal.

 

Veja, pois, o que adiante se lê: “... os Hells’ Angels sentiram que tinham sido trapaceados por Mick Jagger, (...) lotaram um barco e partiram para vingar-se de Jagger”. E mais esta: “‘Os Hells’ Angels ficaram tão enfurecidos com o tratamento que Jagger deu a eles que decidiram matá-lo’, disse Mangold ao jornal”. Vê-se que os rapazes tinham, na verdade, motivos para causar mal ao Sr. Mick Jagger.

 

Está confuso? Não é de estranhar. Porque em “foi salvo de uma tentativa de assassinato por Hell’s Angel” entende-se perfeitamente que os tais anjos salvaram o Sr. Mick Jagger. O problema é que o redator da notícia não quis dizer isso, mas acabou dizendo e seguiu se desdizendo. Pressa, descuido com a língua, não importa, o que aconteceu aí foi um grosseiro desvio da norma e consequente imprecisão do enunciado.

 

“Mick Jagger foi salvo de uma tentativa de assassinato por Hell’s Angels” é uma oração na voz passiva analítica, em que “por Hell’s Angels” é agente da passiva, ou seja, aquele que pratica a ação. Tanto que em voz ativa “Hell’s Angels” seriam o sujeito: “Os Hell’s Angels salvaram Mick Jagger de assassinato”. Portanto, o conhecimento de voz verbal, minha gente, voz ativa e voz passiva, é muito útil para quem escreve. Não vamos deixar louco o pobre leitor.

 

Vai aí uma colher de chá: “Mick Jagger foi salvo de uma tentativa de assassinato planejada por Hell’s Angels.” É só colocar uma pequena informação para dar clareza ao texto. E, para quem gosta de sintaxe, transformamos “por Hell’s Angels”, no primeiro caso agente da passiva, ou seja, aqueles sobre os quais recai a ação de salvar, em complemento nominal de “planejada”. E pronto: clareza total.

 

Àqueles que desejam escrever é recomendável conhecer, no mínimo, rudimentos de sintaxe. Defendo essa ideia com franqueza e determinação. Aduzindo-lhe uma boa dose de leitura e observação das frases que se leem. Aprendemos a escrever com quem escreve e lemos melhor quando o enunciado é claro, com os termos sintáticos nos devidos lugares. Existe uma ordem, e a sintaxe é que a estabelece. Deixemos bem claro: análise sintática não é diletantismo. É ferramenta eficaz para quem deseja escrever.

 

Outro dia, no canal Band News, em bom português, eu e minha filha ouvimos: “Estudante de medicina brasileira é morta na Bolívia”. Minha filha imediatamente retrucou: “Eu não sabia que havia uma medicina brasileira”. “Não é o que disseram? Deve haver, mas não conheço”, respondi-lhe eu.

 

Pois é, coisa da urgência do nosso tempo.

 

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© 2007 Pedro J. Nunes. Todos os direitos reservados.