Inicial | Artigos | Tira-dúvidas | Reforma ortográfica | Quem é | Contato

 

 

 

 

Qualidade ou depreciação

 

Ana Paula envia a seguinte pergunta: “Era uma vez um leão vaidoso, bateu um vento, ficou horroroso. Gostaria de saber se horroroso é qualidade.”

 

Há um amigo meu amigo da matemática, inimigo do português sob o pretexto de que a nossa língua não tem lógica. Para ele, a ciência exata estabelece que dois mais dois dão quatro e isso é universal, e que em português dois mais dois podem ser cinco ou dar qualquer outro resultado. Talvez ele tenha razão, felizmente. Porque no que a matemática é estática a língua é dinâmica, posto que, ao contrário do que muitos pensam, justificados pela falta de habilidade em lidar com as regras gramaticais, a Língua Portuguesa tenha fundamentos bastante coerentes e seja um sistema bastante lógico e regular, exceto quanto a algumas incorporações que envolvem movimentos como subserviência cultural ou particularização do código, por exemplo.

 

Voltemos à questão da Ana Paula, a quem devo confessar que eu também enfrentei o mesmo dilema. Estudei o adjetivo sob a regra de que o adjetivo é a palavra que dá qualidade ao substantivo. O preceito era mais ou menos esse. E ficava encafifado com esse conceito de qualidade em frases como Minha prima é má. Como podia ser qualidade se tudo que eu sabia dizia o contrário, ou seja, ser não era exatamente uma qualidade, mas um defeito.

 

Ora, qualidade, para a maioria dos mortais, carrega uma carga positiva, tem qualidade o que é bom. Vejamos como Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante definem adjetivo em sua Gramática da Língua Portuguesa: “Adjetivo é a palavra que caracteriza o substantivo, atribuindo-lhe qualidades (ou defeitos) e modos de ser, ou indicando-lhe o aspecto ou o estado.” Observem só que há coerência na dúvida de Ana Paula. Afinal, horroroso é qualidade?

Podemos dizer que sim. Qualidade, do latim qualitate, significa natureza (das coisas). Mas será que nossos professores nos ensinam isso? Claro que não. E nós, que lidamos com essa palavra e com tantas outras, costumamos ir ao dicionário? Também está claro que não. E aí justificamos nossa inépcia com uma cômoda acusação de complicação. É o caminho mais fácil.

 

Felizmente, tanto para o adjetivo como para outras palavras que mantêm estreita relação com o substantivo – o artigo, o numeral e alguns pronomes –, arranjaram-lhe um conceito melhor, o de determinante. Isso facilita as coisas e é um fato concreto. Há diferença entre dizer meu livro e seu livro, em que meu e seu, palavras de expressão determinante, mudam radicalmente o sentido do substantivo livro. Mas nada impede que meu e seu também deem qualidade ao livro, pois, de alguma foram, estabelecem a distinção entre um livro e outro.

 

Às vezes, em português, dois e dois dão quatro. É só buscar a informação completa, não desistir na primeira dificuldade. Porque a palavra, essa notável aquisição humana, é a mãe de todas as coisas.

 

VOLTAR

 

 

 

© 2007 Pedro J. Nunes. Todos os direitos reservados.