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Algumas questões relevantes

 

Certa feita, presenciando duas senhoras muito distintas conversando, ouvi várias vezes uma delas pronunciando rúbrica sempre que desejava se referir a rubrica. Eu, que não tenho o - aliás, péssimo - hábito de corrigir as pessoas, tentava justificá-la, dizendo a mim mesmo que, se a maioria das pessoas incorre nessa e em tantos outros casos de silabada

 

s, ela, a despeito da posição que ocupa, estaria, afinal das contas, redimida. Já aquietando-me nesse arranjo, ouço-a pronunciar árdil em lugar de ardil. Desfazendo-se o arranjo, acreditei ver-me diante de um grave caso de apropriação indébita da língua.

 

Claro que existem tantos exemplos grotescos de pronúncia quanto um pobre professor de português necessite para sofrer, mas alguns deles, por sua ocorrência e simplicidade, revelam um total desconhecimento da língua. A propósito, aí vai uma pequena lista - récorde por recorde, gratuíto por gratuito, ruim por ruim, duplex por dúplex - só para aquecer. E, claro, árdil, que, afinal, jamais ouvi que qualquer pessoa pronunciasse exceto tal distinta e impoluta senhora. Necessário é que aqui se registre no rol das atrocidades que se cometem contra a língua.

 

Pois bem, na incorporação de palavras à língua portuguesa a tradição é etimológica, ou seja, mantém-se a grafia da palavra de origem. Exemplo clássico desse fenômeno é a palavra viagem, com "g", em virtude de sua origem viatge, também com "g", e que causa o maior embaraço ao usuário da língua por causa da flexão viajem do verbo viajar (de viagem + ar, que deu origem, obviamente, a viajar com "j" por imposição da pronúncia).

 

Não é diferente na pronúncia. Ardil, do catalão ardit (empreendimento guerreiro, com dissimulação), manteve o acento tônico na última sílaba. Rubrica, da mesma forma, manteve a pronúncia original do latim rubrica. Recorde, do inglês record, que possui pronúncia distinta para substantivo - record - e para verbo - record -  é paroxítona em português por índole da língua e talvez porque incorporada antes pelo francês record.

 

A pronúncia gratúito é consagrada e idêntica em fortúito e flúido (diferente de fluído, forma do verbo fluir).

 

E, para concluir, é bom lembrar que a forma duplex, oxítona, usada para indicar construção de dois pavimentos, é forma não preferencial e considerada pelos dicionaristas como de uso exclusivo no Brasil. Dúplex, dúplice, multiplicado por dois, ainda assim seria preferível: apartamento dúplex. O mesmo para tríplex.

 

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© 2007 Pedro J. Nunes. Todos os direitos reservados.